Oito de outubro, comemora-se nada.

Mais um dia, pra coleção de dias, que chamam de vida. A rotina que se repetia. Liesel estava se sentindo bem, ou talvez seria melhor dizer, normal. Afora o fato de que, frequentar a escola era entediante e tenebroso, porque estava sentindo-se uma alien naquele amplo espaço. Enquanto dava curtos passos, como que pra evitar a chegada a escola, ia pensando em como havia abandonado tanta coisa dentro de si. Havia fugido de si mesma. Pensar assim,  desse jeito, era enumerar proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais segura, mais serena, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. Continuar vivendo, parecia normal. entediante, como a escola. Perguntava-se, o que realmente queria agora. Queria o tudo. Mas o que seria o tudo ? Era preciso ir limitando o sonho, apagando as linhas supérfluas, corrigindo as arestas, até restar somente o centro, o âmago, a essência. Mas o centro era inatingível. Desconhecido. E depois de tanto, ou de tão pouco, o que restara, fora apenas a falta de perspectivas. O vento soprou mais forte, Lis levantou os olhos, havia passado dois quarteirões da escola. Sentou-se na calçada, a caminhada que daria de volta a escola, não a desanimava. Era melhor, chegaria atrasada. Levantou-se, 'há males necessários'  pensou Liesel, a escola era um deles. Descobriu qualquer coisa dentro de si que, não sabia exatamente como nem por quê, conseguia mantê-la serena no meio da falta absoluta de perspectivas.

(Texto escrito pela dona do blog, inspiradíssimo no ídolo Caio Fernando Abreu ♥ )

Depois de algumas lágrimas, Lis descobre o significado das cicatrizes.

Depois de um silêncio, as lágrimas. É a lei natural das coisas, não é ?  Sim, era. Assim como desejara diversas vezes, que as pessoas ao redor, escutassem e entendessem o seu silêncio, Lis, por fim entendera que o final já havia chegado, todos já tinham assistido e batido palmas ao fim deste final, menos ela. Era este o significado do silêncio de Cody. Agora, a sensação de vazio era uma companheira, insubstituível. Estivera ali todo o tempo, mas nunca tão presente, como agora. E a acompanharia a largos passos, ou talvez não. Esta era mais uma etapa, estava certa disso. Para que o arco-íris apareça, é necessário que antes venha a chuva. É, é a lei natural das coisas. Não podia antecipar fatos, uma hora estaria livre, ou nunca estaria livre desse sentimento mas, de alguma forma, conviveria com ele. Como uma cicatriz, que não some, está sempre ali, pra lembrar que a dor havia sido real, mas que agora era uma vaga lembrança que tocada, não sangrava, nem ardia. Hora ou outra tinha de ser feliz, ou ao menos tentar. Para Liesel, a felicidade consistia em tentar alcançar a própria. Nem mesmo a mulher no anúncio do apartamento de luxo, com cabelos longos e sorriso aberto no comercial da tv era 100% feliz, não podia ser, ninguém era. Lembrou-se a si mesma, que precisava ir a praia. Lera em algum lugar, que o vento não cobrava pra levar algumas coisas e não as tomava de nós, a menos que deixassemos. Enquanto este esperado passeio não chegava, ia atravessando os dias. Alma vazia, no lugar do coração, aquele buraco. As vezes doía, mas não ao ponto de fazê-la derramar lágrimas. É que quando se está muito perto da cura, a dor aumenta, sua vó dissera 'Por experiência própria'. 

Até sempre. Ou não.

P-o-r-q-u-e. Seis letras, que variavam de formas e sentidos. E exerciam os mais diversos questionamentos, na mente confusa, e agora forçadamente limitada de Liesel. E pensar, que há algumas horas, esteve tão perto de Cody, como não imaginara que estaria, depois desses 3 meses e 25 dias. E vê-lo, só reforçou a tese de que, amor como este, ela nunca mais sentiria igual. Porque ele ficava tão bem de azul. Combinava com o contraste de sua pele, morena meio clara e bronzeada. E aquele jeito turrão, não havia mesmo mudado, caía bem também, com o azul. E os olhos de Lis, não cansavam de procurá-lo, e mirá-lo em todos os momentos possíveis, aquilo era necessário. Naquele momento (como em todos os outros) dependia mais dele, do que de si própria. Ele retribuía o olhar, vagamente, disfarçadamente. Como se quisesse evitar o inevitável. Inevitável que ele, no alto de sua supremacia, arrogância e orgulho, conseguiu evitar. Nem ao menos a cumprimentara. Nem um 'oi'. Porque ? Nem mesmo nos momentos em que o que restara de um coração em Liesel disparavam, ao vê-lo se aproximar tanto. Nada. Inexiste, ele dissera uma vez. Cody Meminger, simplesmente ignorava a pessoa para o qual, ele era todo um universo dentro do íntimo infinito particular. Queria abraçá-lo, sentir seu cheiro, que ainda lhe era palpável nas narinas. Rir dele, com ele. Queria lhe dizer o quanto esperara, para vê-lo de novo, contar-lhe da importância que tinha, desmedida. Contar o sonho, que teve na tarde anterior, enquanto dormia depois de ter tomado remédios por causa de uma febre, que chegou depois que soube, que o veria no dia seguinte. Dia este, que havia aberto uma ferida semi-fechada e quase cicatrizada. Que agora sangrava, incontrolavelmente, mas não doía nem ardia. Apenas incomodava. E se antes não tinha uma resposta, agora era ainda mais incerto, ou não. 'Até quando ?' essa já não era mais a pergunta... Até sempre ?

Antes não era melhor, mas dá saudades.

Lutar em segredo, fechada no quarto, sem que ninguém saiba. Para os outros, mostrar só o melhor de si, a face mais luminosa. Uma rotina que não cansava de se repetir. Uma eterna constância. Liesel já havia dado tempo ao tempo. Um prazo suficiente e considerável, pra o senhor-sabe-tudo do tempo, ajeitar e colocar as coisas no lugar. As coisas estavam no lugar, exceto por aquele buraco raso que, antigamente ficava um orgão involuntário. Não o teria de novo, e ainda que o tivesse, não seria mais o mesmo. Então, de nada valeria. Sentia saudades daquele que ela sabia, que não voltaria. Sem ele, melhor seria viver só. A chuva caía com tanta força, que decidiu por não chorar, as nuvens, altivas, faziam isto por ela.  'Até quando ?'. Esta era uma pergunta, para qual ninguem tinha resposta. Livrar-se disto era fácil, quando não parecia necessário.

Laços visiveis, que não são vistos, nem quebrados.

Muita coisa havia mudado, mas eles ainda estavam lá. Os laços visíveis, que só a própria Liesel via. A vida havia seguido, as lágrimas eram agora, raridades. Acordar, estudar, dormir. Eram coisas normais, tudo havia voltado pro seu eixo. Já não doía, as lembranças já não apareciam mais, com a mesma frequência, com frequência quase nenhuma agora. A fachada,mantida desde sempre, era agora 60% da própria Liesel. Estar com os amigos, rir até doer, falar de coisas da vida, assistir novela, tudo isso era muito distrativo. As pessoas á sua volta, percebiam a mudança, que ela se esforçava pra transparecer... Estava enganando a si própria, Jake dissera uma vez. Este, era o único que sabia, que Liesel sabia, que estava enganando a si própria, com sucesso. E estava mesmo. Por vezes, sozinha, desejava que o tempo voasse, e que o destino de alguma forma, unisse , do nada, sua vida, á vida de Cody. Como fizera da primeira vez. Esperava que o tempo voasse, para que ele retornasse... e então, como de costume, abraçá-lo, e beijá-lo, e sentir aquele algo em comum, que inexistia ao mesmo tempo em que era o elo que os ligava. Sabia, que um amor assim, desse jeito, não ia sentir de novo, mas precisava viver, porque uma vida assim, desse jeito, não ia viver de novo.  E mesmo que essa saudade fosse uma ferida não curada e incurável, precisava se permitir, e suportar. Então,  é este o preço que se paga, por amores demedidos, e desamores fatais.

O esforço pra lembrar, é vontade de esquecer ?

Milhões de vasos sem nenhuma flor. Milhões de flores sem nenhuma pétala. Jake riu. Liesel sabia que ele estava rindo, pois sentia a brisa leve fazer cócegas com o cabelo na bochecha dela. Para Jake, as coisas que Liesel falava e sonhava não eram ilógicas nem loucas. Ele era o melhor amigo do mundo. A ouvia, pacientemente. Levava a sério o que ela falava. Ria com a mesma frequência que a fazia rir. Estava ao seu lado, quando ela mais precisava de silêncio. Tinha dedos macios, como veludo e Liesel se sentia aquecida quando ele enxugava suas lágrimas. Fechou os olhos e desejou que Jake fosse real... Se ele fosse real, apaixonaria-se por ele. Jake, era apenas um amigo imaginário, bem formulado. Liesel sentiu medo. De repente, pensar em Cody, não era mais algo involuntário, era como se ela agora, fizesse esforço pra lembrar. Não queria acreditar, que estava deixando aquele amor virar poeira, não aquele...

Porque, depois da meia noite, o barulhinho do ponteiro no relógio é notável.

Tic-Tac. O silêncio era tão intenso na sala, que Liesel podia ouvir o barulho mudo do ponteiro do relógio na parede que anunciava 00:03 da madrugada. Mais um dia estava iniciando, mais 23 horas e 57 minutos pela frente. Os dias, as horas, o tempo, haviam perdido o sentido. Estagnada em tempo e espaço. Dominada pela inércia e convencida pela desesperança a manter-se deitada. Os pensamentos começaram a engarrafar e buzinar dentro do seu cerébro. Eram duas Liesel's, falando ao mesmo tempo. Dormir assim, era quase ímpossivel. Nem tentaria. Seria perda de tempo. Se bem que Liesel já não se importava em perder tempo. Perder tempo era ganhar tempo para o próprio tempo. Até que fazia sentido, mesmo que não tivesse nenhuma lógica nesse raciocínio. Estava mesmo perdendo a lucidez. Mas, um louco quando sabe que está louco, já não é mais louco. Ilógica, então. Ser ilógica, ultimamente, apesar de tomar-lhe o sono, estava ajudando. Distraía.

O tempo tarda... e falha.

Amanheceu. Mais uma manhã. Mais uma vez, ali estava o incansável que as vezes se cansa, o sol. Debaixo daquele mesmo céu, pensou Liesel, ele está também. Inevitável pensar nele. Inevitável sentir falta. A rotina não mudara, depois dos dois meses. Apenas pelo fato de que a sensação de vazio, por dentro, era muito mais avassaladora agora. Esquisito. Com o tempo, a tendência não seria melhorar... sarar ? Costumavam dizer que o tempo cura todas as feridas... Mais uma piada insana, de pessoas mal-amadas, como Liesel. Mas tudo já era tão estranho e ao contrário na sua vida, que Lis não se dispusera a pensar no assunto. E, mesmo que agora, a saudade fosse assustadoramente dolorosa, precisava se manter firme. Para não demonstrar fraqueza para os que acreditavam na sua lucidez. Precisava se manter firme e distante, aproximar-se agora, poderia atrapalhar a vida de Cody, que parecia muito bem. Pra essa dor, diferente daquela dor de antes, Liesel ainda não havia arranjado nenhum dos seus remédios inúteis. Havia acreditado no tempo, mas ele não se mostrava forte e implacável, como nas piadas insanas das pessoas sem bem-querer. Queria descobrir um xarope pra apagar a memória. E essa saudade doída, trazia uma vontade estranha de ir ver o mar, quem sabe o vento e a maresia da praia, trouxessem a solução que o tempo esqueceu em alguma gaveta.

Uma contradição, controversa.

A ausência de Cody estava machucando Lis. Já havia se passado dois meses, tempo suficiente pra fechar o que feriu por dentro. Parecia mesmo, tempo suficiente. Cody havia sumido. Não ficava mais online no msn, não entrava no orkut, não frequentava os mesmos lugares que Liesel, não dava sinal de vida. Talvez, e muito provável, ele havia retomado a rotina. Obviamente. Ele agora tinha com que se preocupar... com quem. Liesel não estava fazendo nem metade da falta que ele fazia. Ele, ao contrário dela, não tinha um buraco no lugar onde antigamente ficava seu coração. Aos poucos, a esperança de Lis ia morrendo, mas ela, incrivelmente, lutava pelo contrário. Para que aquilo não virasse poeira, lutava por não esquecê-lo. Ele não podia, não iria morrer. Não dentro dela. E então, ela era uma controversa - contradição. Esforçava-se para que sua mente não o esquecesse e seus olhos ao se fecharem, lembrassem daquele sorriso, nos mínimos detalhes. Ao mesmo tempo em que desejava tirá-lo de si. A saudade tornava Liesel hipócrita. E Liesel odiava hipocrisia. Essa contradição machucava. Fazia a cabeça rodar e doer, então Liesel decobriu um remédio pra isso. Dormir. Porque, enquanto dormia, nada precisava estar sob seu controle. Decidir entre esquecer e lembrar, era algo que Liesel definitivamente não queria, nem sabia fazer, mas que hora ou outra, iria acontecer. E mesmo sem forças, por causa das tentativas frustradas, em algum momento seria inadiável ela teria que recomeçar...

A inestimável perda do que não se tem.

Dois dias, para dois meses. Tempo exato em que Liesel não via Cody. Não o via fisicamente, porque nos últimos dias, como de costume, ele foi presença constante em seus pensamentos. Queria mesmo vê-lo. Havia desistido da fútil ideia de tentar esquecer. Não tinha forças, ainda mais para perdê-las com tentativas inúteis e repetidas. Talvez, se fizesse o caminho contrário, deixando as lembranças aflorarem, doesse menos. E de tão acostumada com a dor, acabasse por esquecê-lo. Mas era isso que Lis vinha fazendo todo esse tempo, e ainda assim nada havia mudado. Só a dor, que se entorpecera e se tornara mais forte. Liesel desejava agora, viver os momentos que não foram vividos. O futuro, que havia morrido, antes de nascer. Esse vazio era muito pior, o vazio do que não aconteceu. Saudade do gostinho das coisas que não havia provado. Poderia provar todas essas coisas, com outras pessoas, até mesmo imaginariamente. O problema, era que amava Cody Meminger e ela não tinha dúvidas, de que com ele daria certo. Era algo naquele sorriso de aparelho, que completava seu mundo.

Dias nublados, janelas fechadas.

Liesel sabia que esse vazio, a acompanharia, faria parte dela apartir de sempre. E mesmo que agora, fosse como se ela nunca tivesse tocado a vida dele, ainda havia algo, que inexplicavelmente pulsava. Mesmo que ainda muito fraco, quase parando... Desejava entender, como Cody podia ser tão insensível. Não estava cobrando reações, nem á espera delas, mas no alto de sua ingenuidade, desejava senti-lo, não apenas por lembranças, de olhos fechados. Desejava entender, de onde vinha as lembranças que a faziam esperar, como se o nunca não existisse. Disseram-lhe, que enquanto o céu fosse azul, ainda haveria esperança. E então, quando a saudade e a tristeza apertavam muito, Liesel mirava o céu. Foi quando reparou nas nunvens. Tão superiores, indiferentes ao que estava abaixo delas, indiferente aos ventos, como se não fizesse muita diferença. Tão altivas... como Cody. Mas nuvens também choravam... Então, talvez, Cody também sentisse algo, qualquer coisa que fosse, que talvez o fizesse chorar. Riu da hipótese. Fragilidade era algo que não combinava com ele. Mesmo assim, não custava imaginar... 

Presa num replay.

Nostalgia. Estranho, como Liesel se sentia estranhamente acolhida por este sentimento. Estranho, como Liesel não conseguia imaginar nenhum futuro para si, que não fosse ao lado de Cody Meminger. Assim como não imaginava nenhum presente, com ele ao seu lado. Fechou os olhos. Ultimamente, fechar os olhos aliviava. Ensaiou um choro. As lágrimas não caíram. E, como de costume,os pensamentos voaram até Cody... Onde ele estaria, com quem... Conseguia até visualizar, como as coisas seriam diferentes se ele estivesse ali ao seu lado, mas esse, era um futuro distante que havia morrido antes mesmo de ter a chance de viver. Desejou que ele não a esquecesse. Que vez ou outra, lembrasse. E desse aquele sorriso. Aquele pelo qual, a essa altura, Liesel derramava lágrimas. Abriu os olhos. Mas ainda que de olhos abertos, repetiam-se cenas em sua frente, como num filme. Cenas que ela conhecia bem. Liesel estava presa neste replay.

Aplique na veia, cerca de 10 ml de cloreto de potassio, de forma que não transborde.

Deu. Liesel havia chegado no seu ponto limite. Sempre esteve disposta a ir levando, até onde desse... Mas agora, havia transbordado. Não conhecia maneiras, de deter aquilo. Parecia um tormento, a forma como as lembranças invadiam seu cerébro, pareciam traças, roendo o que ficara de sanidade em Liesel. Aquele beijo. A forma de abraçar, os minutos esperando. O sorriso doce. Nada mais era seu. Agora, além de chorar Liesel também gritava. Sentia estar perdendo o juízo. Culpava-se. Por ser tão detalhista. Por lembrar tão milimetricamente de tudo, depois de todo esse tempo. Era uma fraca, e agora, insana. Quanto mais fugia, mais parecia estar se aproximando, como num ciclo vicioso e masoquista, que a atraía.

1/2 de nostalgia.

Liesel estava deixando a melancolia dominá-la. Este era o rumo, quando não se tinha mais forças para lutar contra a falta de forças. Sentia estar perdendo o juízo. Demonstrava isso. A fachada, antes, automática, já não prevalecia. Liesel não mais se esforçava por manter uma aparência sadia. Isso aterrorizava quem estava á sua volta, todos já acostumados com a 'Liesel por conveniência'. Estado vegetativo. Era como Liesel desejava estar. Sem pensar. Sem agir. Sem falar. Sem lembrar. Tudo isso doía tanto. Queria mesmo, um jeito de entrar em transe. Porque definitivamente, já não suportava aquilo. Aquela dor, que depois de entorpecida parecia ainda mais forte e estava a destruindo. 'Como num filme, no final tudo vai dar certo' Essa frase soava como uma piada, que todos insistiam em contar, pra irritá-la mesmo. Liesel não queria um final. Queria um meio. Um meio de fugir daquela nostalgia.

Hemorragia por lágrimas de sangue.

Aquilo foi como um tiro seco. Á queima-roupa, sem que o atirador ao menos olhasse pra vítma, num ato de total falta de compaixão. Ela sabia, que hora ou outra isso aconteceria. Que breve isso aconteceria. Havia demorado muito até. 'Simplesmente inexiste'. Ele dissera isso uma vez. N Ã O. Não conseguia aceitar. Depois de ver aquilo, Lis congelou. As lágrimas caíram lentamente, timidamente... tão devagar que chegava a doer, provocando arrepios. Aquilo era o fim, de toda esperança de qualquer recomeço. Ruínas. 'Por favor, não, alguem me acorde deste pesadelo'. Liesel tremeu. O sorriso doce dele, que até então, era apenas dele, agora tinha uma nova dona. Aquele mesmo, pelo qual ela daria todas as células do seu corpo. Ruínas. Liesel não tinha forças para qualquer outra reação, que não fosse chorar. E mesmo que tivesse, nada podia fazer. Ele estava feliz, e fazendo alguém feliz. Lis, inexistia. Mas, não era isso o que importava ? Vê-lo feliz ? Então porque aquelas lágrimas, que pesavam como se fossem de sangue ? As lágrimas a essa altura, caíam descompassadamente. Ela bem sabia, um dia isso iria acontecer, e agora, a dor entorpecida, acordara como um amanhecer dentro de Liesel. Aquela dor, era pior que todas as cólicas do ano.

Precisa-se de removedor á base de alcool. Sem ardor, por favor.

Cody era como o esmalte descascando na unha de Liesel. Ela sabia que estava na hora de tirá-lo, estava ficando feio já. Mas é que combinava tanto com ela. Lis não queria, mas sabia a necessidade de tirar o esmalte, mesmo que gostasse muito, mesmo que combinasse tanto... Faltava-lhe coragem, disposição. Então era isso que Cody Meminger havia se tornado : um esmalte descascado na borda das unhas. O que leva uma mulher a não limpar as unhas quando o esmalte começa a desgastar ? Talvez a falta de tempo. Aos poucos, a própria Liesel roía alguma das unhas. Doía. E doía ainda mais, porque ela realmente não queria fazer aquilo,por mais necessário que fosse.

Cody Meminger era exatamente assim...

Era tudo que Liesel, nunca haveria de procurar no cara que ela escolheria pra viver a vida toda. Ao segurar suas mãos, nem mesmo as acariciava. Não olhava pra ela, enquanto ela falava. Não ligava, sequer tinha o número. Não era atencioso, nem carinhoso. Não tinha vocação nenhuma pra o príncipe encantado, que toda garota deseja encontrar um dia, que toda garota acha que encontrou quando está namorando. Falava de um jeito superior, inabalável, arrogante. É, aquele mesmo, aquele jeito que fazia os olhos de Liesel brilhar. Era dono de uma insensibilidade, indiferença, indelicadeza... e esses são só os 'in' .Mas Liesel, indubitavelmente, daria sua vida por ele.Íncrivel, não ? Sim. Era por ele, o grosso, sárcastico, irônico, ausente Cody, por quem Liesel daria todo o seu sangue. Sem precisar receber nada em troca. Aliás, talvez quisesse sim. Quisesse aquele sorriso, que tão poucas vezes ela havia visto nas feições duras de Cody, que tinha certo prazer em fazer cara de mal. Não, não era do sorriso maldoso e sarcástico que Liesel lembrava. Era do sorriso doce, meio aberto, meio fechado. Meio sem graça. Contagiante. Que ele evitava, por achar que demonstrava fraqueza, aquele sorriso, que ela elogiara uma vez. Que pedira bis. Que ela sonhava de vez em quando, e que ela via, em todos os caras que se aproximavam muito perto dela, assim como também enxergava em todos eles, os cachinhos que seduziam seus dedos. Ele não precisava ser o príncipe encantado, Liesel não queria um final feliz. Trocaria um happy end com qualquer Reynaldo Gianechinni, para que seus olhos vissem aquele sorriso, só mais uma vez.

E talvez, não sentisse mais, dizem que coisas assim, só acontecem uma única vez.

Tinha tanta coisa errada. Tinha dor, e tinha saudade. Liesel precisava saber como ele estava. Precisava, queria. Não sabia explicar, a necessidade de notícias. Esse querer desmedido. Era estranho, parecia viver esperando o momento em que ele falaria com ela de novo. Já não gelava ao ver o nick dele no msn, mas assim como as crianças esperam pelo recreio, Lis anseiava pelo momento em que Cody finalmente se reaproximaria , como da outra vez. Mas sabia bem, Cody não ia falar. Não. Não ia ferir o próprio orgulho de novo. O conhecia o suficiente pra saber que qualquer contato só seria iniciado se ela mesma o fizesse... Mas não podia fazê-lo. Doía. Aquela dor estranha, que não deixava ela dormir. Mas precisava saber, como ele estava. Se estava se cuidando, dormindo cedo, evitando o café. Se estava cansado, preocupado, animado, com outra... até mesmo isso, precisava saber. Já suspeitava, mas quem sabe, se suas suspeitas fossem confirmadas, ela finalmente conseguiria tirá-lo de si. Lis odiava, não conseguir odiá-lo , nem um pouco, nem mesmo por um segundo, nem mesmo só por odiar. E então, ela chorava. Chorava por conseguir perceber, que até aquelas lágrimas, eram em vão. De nada adiantaria, o tempo em que chorar resolvia, já tinha passado pra Liesel. Ela chorava, por não conseguir se convencer, por ver o tempo passar. Então era isso que as pessoas chamavam de amor, e Liesel definitivamente não queria mais sentir, nunca mais.

Um reflexo, além-mar .

Ela podia ver as pegadas, deixadas na areia. E ele ao longe, de costas pra ela, que o mirava por um espelho. Indo numa direção oposta. O espelho tremia na mão, e as lágrimas embaçavam a visão da garota. O vento soprou frio demais na praia, levando ele, e consigo, o que um dia fora um órgão involuntário - coração. Abriu os olhos. O sonho parecia muito real. Lágrimas escorriam pelo rosto de Liesel. Já fazia tanto tempo, mas ela ainda se lembrava milimetricamente. Não foi numa praia, nem no reflexo de um espelho, mas ela lembrava bem, da última vez que vira Cody. Sentiu um aperto no coração. Aquilo ainda doía, como se fosse ontem. Foi de costas, que ela viu ele ir. Parecia até estar com um espelho, como no sonho. A sensação de dor, daquela terça-feira, 6 de julho voltou avassaladoramente. Ele havia ido, e como no sonho, nem ao menos Lis pudera ver seus olhos, uma última vez. Apenas o reflexo. O reflexo daquele, que era o seu próprio reflexo. Sua 'vida' , não era assim que o chamava ? O tempo havia passado, e nem mesmo os mais próximos, amigos que conheciam a história, entendiam. Como ainda podia existir algo, que de alguma forma, era o que alimentava as energias exaustas de Liesel. Cody Meminger, como eu te amo. Para Liesel, não restavam dúvidas. Estes rastros, deixados no lugar que antigamente ficava seu coração, seriam eternos. Cicatrizes, além-mar.

Como milho, que não estoura, nem vira pipoca. Piruá.

Liesel estava vivendo como uma lagarta, antes de virar borboleta : presa num casulo. Por dentro, estava em cacos. Por fora, por mais que se esforçasse, não conseguia ter uma aparência de alguém feliz. Até mesmo os ensaiados sorrisos de conveniência, já nao convencia as pessoas, acostumadas com a fachada. Era um sorriso frio, com um soluço disfarçado. Uma tristeza sentida nos olhos. Ela dizia que era cansaço, não deixava de ser. A desculpa convencia. Estava mesmo, muito cansada. Cansada de esperar dias melhores. Cansada de fantasmas. Memórias são fantasmas, que assopravam aos ouvidos coisas que Liesel não queria saber. E mais uma vez, o desejo pela morte, lhe parecia a melhor solução. Se existisse alguma forma de vida ou existência, depois da morte, com certeza devia ser melhor que aquilo. Não estava mais cortando os pulsos. Faltava-lhe disposição.
Descobriu que correr riscos, além de ser uma forma de encontrar o desejado fim, era também divertido. Talvez, riria depois. Estava no seu casulo, em processo de metamorfose... mas o que acontece, quando o processo de metamorfose da lagarta, não se completa, e ela não vira borboleta ... ?

Dividida em dois , e não por dois.

Qualquer forma de comunicação, era uma cutucada na ferida. Cody não mudara. Estava em cima do seu altivo e inabalável orgulho. Estava vivendo, e vivendo. Como qualquer outro garoto, que, solteiro, nem lembrava da ex. Isso doeu em Liesel. De repente, sua mente estava em um dilema. Metade de si a mostrava as inúmeras e crescentes falhas cometidas contra ela. Mostrava as lágrimas, o sangue derramado, em vão. Já a outra metade mostrava-lhe apenas e tão somente a falta que ele fazia. As lágrimas fluíram. Liesel as deixou fluir. A ferida que até nestante, estava cicatrizando, agora ardia. Diferente de antes, ela não se perguntava o porque. Não ficava revivendo os momentos, no cerébro. Ela só chorava. Precisava pôr alguém no lugar dele, mas não conseguia. Pior, não queria. Desejava encontrar nesse alguém, algo que só ele tinha... algo que nem ela mesma sabia bem o que era.

Insensibilidade, [não] arde menos que Merthiolate.

Ser insensível não era tão ruim, também não era bom. Por mais imatura que fosse, Liesel estava amadurecendo. 'Vivemos esperando, o dia em que seremos melhores, melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo...' Viu seu reflexo na tela da Tv desligada. Não era mais uma menina, ainda não era uma mulher. Se via como uma garotinha, mas era aquele reflexo, de uma quase mulher, que o mundo via. Fechou os olhos. Fechá-los agora, já não doía. 'Como será que ele está' ' O que ele está fazendo' 'Com quem' ... estes pensamentos flutuavam em seu cerébro. Sorriu. Algo dentro dela, lhe garantia que ele estava bem. Ela estava bem, também, ou parecia estar. Sem dizer adeus, o fiel companheiro, o vazio, tinha ido embora. Era comum que fosse abandonada. Sorriu de novo. Hora ou outra isso ia acontecer... a tristeza estava sendo substituída pela convicção de que as coisas estavam voltando pros seus respectivos lugares. Sem precisar de merthiolate, a ferida estava cicatrizando...

... é quando o 'quase' se torna um grande problema.

E parecia que, finalmente, Liesel havia aprendido a conviver com o buraco que Cody deixara no seu coração. Havia aprendido a suportar a falta que ele fazia. Ainda o amava irracionalmente. Ainda trocaria sua existência, pela vida dele, mas havia parado de lutar essa luta sem confrontos reais. Apenas confrontos travados dentro dela mesmo. Saudades x Consciência. Sem ele, Lis tinha as lembranças, lembranças que ninguém poderia lhe tomar... só o tempo. O tempo que transforma todo amor, em quase nada. As lembranças, agora, não doíam, eram o refúgio de Liesel... definitivamente, estava diferente. Indiferente, como ele.

Dor e indiferença, [não] ocupam o mesmo lugar no espaço.

Como feixes de luz, num deserto á noite. Assim eram as lembranças de Liesel. Feixes que cegavam. Á medida que o tempo passava, Lis se tornava mais fria... não sabia se a  palavra certa era 'frieza', á medida que o tempo passava, Liesel concretizava os pensamentos. Pensamentos que estavam criando raízes em seu cerébro e que, quanto maiores as raízes ficavam, mais marcas eram deixadas. Tanto tempo depois, e nem mesmo a própria Liesel entendia. Não tinha valor, mas tinha sentimentos, de verdade... custava valorizá-los ? Não queria valor para si, mas sim para o que estava sentindo... ou que havia sentido. Por vezes, (geralmente ao amanhecer) percebia um vazio, no lugar da fiel escudeira, a dor. 'Logo agora que me habituei' pensava Liesel. Até a dor a deixara. Via pouco sentido nas coisas. Estava diferente. Sem saber e sem querer, involuntariamente, uma segunda pele a revestia. A indiferença.

O início do fim.

O 'pra sempre' acaba. Acaba mais de uma vez. E pra se aprender que o pra sempre acaba é necessario que se comece. Liesel estava aprendendo. Antes de formular uma regra geral, as experiências devem ser analisadas repetidamente e apartir dos resultados constantes, chegar a uma conclusão, já dizia Da Vinnci. Liesel já não se sentia mais a mesma em relação a Cody. Isso não queria dizer que o havia esquecido, que o amor havia acabado. Não. Isso queria dizer que seu coração não gelava mais ao ver online no msn. Havia perdido o sentido do que era amor, ainda o desejava, mas de alguma forma, não se sentia mal por não tê-lo. Seria o início do fim desse para sempre ? Liesel sequer questionava. Suspeitava estar superando. No fundo, no fundo suplicava que isso não fosse verdade. Iria esperar. Não sabia mais quanto tempo iria aguentar esperar, mas tinha certeza que coisas boas chegavavam, pra aqueles que esperavam.

Talvez, perto e distante, não sejam opostos.

Os dias passavam e Liesel não sabia como desfazer tanto sentimento. Não conseguia, não queria... Se perguntava de onde vinha tanto amor. Lhe parecia, ao seu ver, que Cody era a sua alma gêmea, sua metade. Mas as evidências insistiam em mostrar pra Lis que ela não era a metade dele. Pensava por 3 horas, esquecia por 2 minutos. ' Só o tempo irá curar' era o que muitos diziam. O tempo estava fazendo a parte dele. Liesel não. Mas como deixar o tempo levar algo tão bonito ? Algo nunca sentido com tanta intensidade antes ? Como ela poderia permitir que virasse poeira ? A vontade de abraçá-lo era preenchida com longos abraços ao travesseiro, que geralmente terminavam em cochilos de noites sem sonhos... Liesel havia aprendido a não sonhar, dormir era um paliativo. Andava exausta, a escola lhe sugava as forças, o que em parte era bom, mas estava exausta por dentro também. Ver como Cody estava vivendo a vida normalmente, reforçava a tese de que Lis cada vez mais se distanciava e fazia menos parte da vida daquele que era a sua própria vida.

Tênis furado, ângulos trocados, relógio quebrado e poluição ♪

Já haviam se passado duas semanas, desde a última vez que Liesel vira Cody. Estava lembrando menos. Lembrar menos, não era necessariamente bom, lembrar menos era fingir mais, e fingir, por vezes, era muito difícil. A dor e o vazio, amigos cada vez mais próximos, já não lhe eram tão insuportáveis, estava começando a administrá-los. Fingia muito bem, de vez em quando enganava a si mesma, sensação que durava muito pouco. Os "choros internos" eram mais frequentes. Os dias passavam, e Liesel já não via sentido neles. A atração pela morte superava a vontade de viver. Sabia que não estava assim por Cody, por ele também, mas não só por ele... tudo estava estranho, feio e sujo na sua vida que agora estava plantando bananeira de cabeça pra baixo.

O que fazer, quando a atração pela morte, supera a vontade de viver ?

O pulso coçava muito no lugar do band-aid. Furá-lo de novo, foi uma decisão precipitada. Havia jurado não cortar mais. O lugar estava demasiadamente avermelhado. A noite não tivera sido fácil para Liesel, seu fiel companheiro, o vazio, tornava-se agora agressivo. Trazia com ele a atração cada vez maior pela morte. Liesel sabia o que isso significava. os sintomas eram claros... Olhar distante, desejo de solidão, apatia, longos periodos de imobilidade física, negativismo constante diante do mundo, sensação de fracasso e de impotência, e um certo ar de ausência onde quer que fosse...
Não queria se tornar uma menina depressiva, não de novo. Ou talvez quisesse, ou já estivesse. Era tão mais fácil deixar a areia movediça da tristeza ir sugando as forças... O pulso ainda coçava muito e estava com sangue quente, quando foi se deitar. Essa noite não pensara tanto em Cody, e de certo, não sonharia com ele. O fiel companheiro, o vazio, lhe ensinava a administrar os sonhos, e isso era bom...

Precisava estar disposta a ir levando, até onde desse ...

E os segundos moviam-se rapidamente. Já era sexta-feira. A farda do colégio, mesmo sem lavar, havia perdido o cheiro de Cody. Para Liesel, os dias haviam passado rápido... ou foi devagar ? Lis não sabia dizer, não via sentido nos dias. Lembrava-se milimetricamente daquela segunda feiraPor vezes, desejava voltar a ela. Ainda não havia se conformado que agora, de fato, tudo seria só lembranças. Ainda o queria. Não sabia o que fazer com tanto amor. Sabia que precisava libertar-se, desfazer-se desse sentimento, mas não tinha forças. Ah! como Cody fazia falta... Liesel queria ser o vento, pra abraçá-lo sem que ele visse. Onde ele estivesse... com quer que fosse, ele devia estar bem. Era isso que importava. As lágrimas agora, faziam o caminho inverso. Lis continuava chorando, mas bem lá no fundo, onde ninguem podia ver suas lágrimas. Apesar de não-conformada estava disposta a ir levando... até onde desse.

Desse jeito, ela pensou, levaria até onde desse.

A dor não deixava Liesel dormir. Eram 04:28 da manhã, o despertador tocaria dali a 2 minutos, e pela ordem natural das coisas, ela desligaria o celular e dormiria, até seu pai a chamar quase uma hora depois. Mas naquela manhã, Lis não se atrasaria. Mesmo acordada, esperou o celular tocar. 2 minutos e ele tocaria. Não tinha como não pensar em Cody. Não precisava nem fechar os olhos, o cheiro dele, ficou impregnado na farda do colégio, que durmira na cabeceira da cama, em breve, no sábado, dia de lavanderia, ela sabia que se livraria do perfume. Ela não queria. O celular só deu um toque. Liesel o desligou imediatamente. Levantou-se rápido. Quanto mais tempo permanecia parada, mais a dor aumentava. Movimentar-se era agora, uma atividade importante. Precisava preencher todos os segundos na mente, o que era obviamente impróvavel e ímpossivel de ser feito, se ela não o imaginasse a cada batida do coração. Dormir era torturante. Concentrar-se em algo que não fosse suas anotações e textos era um insucesso. Perdida. Era como Liesel se sentia. Ausente de si própria. Sim, a dor dominava Lis. A consumia. A certeza de que era o fim. Não haveria mais nenhuma tentativa de volta, sugava a energia de Liesel. Desse jeito, ela pensou, levaria até onde desse. Liesel não vivia, ela simplesmente existia. E enquanto o dia passava, ela olhava pro curativo no pulso  direito. Sentia medo. A atração pela morte, superava a vontade de viver, o band-aid no pulso, era prova disso. Já havia furado o esquerdo antes, mas nunca desejara tanto a  consumação do ato, como agora. A noite, tinha planos de fazer novos furinhos. Nada a distraía, nada provocava sorriso em seus lábios. Sorria sim. Fingia ás vezes, pra não ser desagradável. Mas não aparecia a covinha na bochecha, enquanto sorria por conveniência. E dessa forma, ela iria levando, até onde desse... Sabia que sua vida não ia acabar por causa de Cody. Cody era só um garoto e ela já esquecera outros garotos antes. Mas sabia também, que sua existência nunca mais seria a mesma.

De olhos fechados, o rascunho final .

Fechar os olhos, era um alívio para Liesel. Um alívio torturador, que não aliviava. Liesel queria chorar, mas nem mesmo as lágrimas tinham forças pra brotar. A cabeça rodava muito. Estivera mal de manhã, mas sem dúvidas, estava muito pior agora. Por dentro e por fora. Depois daquelas meias palavras de Cody, e da forma exata que as coisas se encaixavam como um perfeito quebra-cabeça na mente de Lis, o ônibus chegou. Dessa vez, Liesel não sorriu o manjado sorriso de saudade. Não pediu pra Cody entrar no msn, e nem mesmo fez o olhar carente de sempre, que suplicava que o garoto a puxasse daquele carro, a beijasse e dissesse 'não, hoje o tempo vai te perder pra mim *-* ' Não. Lis não fez nada disso. Nem sequer olhou pra trás ao murmurar um 'tchau' baixinho. Não queria encarar Cody. Choraria se o fizesse. Ensaiaria um choro estranho. De olhos ainda fechados, tentou imaginar tudo. Conseguia ver seu coração se rastejando, aos poucos, via uma mão o levantar e em fração de segundos depois, a mesma mão, empurrava seu coração no abismo de pedras, que dessa vez se mostrava mais fundo. Seu coração, já todo cheio de marcas, ia ter um duro trabalho, pra voltar ao menos a rastejar novamente. Abriu os olhos. Visualizar com detalhes não estava ajudando. Sabia o que pensar. Dor, dor e dor. Liesel havia sido anestesiada por essa já conhecida dor. Entorpecida pelas lembranças, que dessa vez eram recentes, Liesel tentava se convencer de que agora, de fato, ela precisava se desapegar dele. Seria como uma mulher prestes a fazer um aborto, ela sabe que faz mal, sabe que será doloroso, mas tem que fazer. Liesel sabia o quanto doeria desapegar-se de Cody. Já havia tentado.

Escrever é resgatar um tempo que foi, e amarrar um tempo que vai .

Liesel estava ansiosa. A chuva ia e voltava. Logo ao sair da escola, a sandália de Liesel quebrou. 'Ah não', pensou Liesel, chegaria atrasada. Estava sem relógio, mas saber a hora também não ajudaria, desceu do táxi na hora exata que a chuva resolveu cair torrencialmente. Cabelos e maquiagem estragariam, se ela não fosse rápida o suficiente com o guarda-chuva, estava acostumada a agir com habilidade. Chegou ao local combinado, não o viu. Perguntou as horas, estava 20 minutos atrasada. Ele já tinha esperado quase uma hora, uma vez. Liesel sentou-se no banco, esperaria mais um pouco. Tinha esperança, queria vê-lo, talvez até mais que o próprio Cody. Detonautas tocando baixo, no único fone que funcionava do ipod. Ela viu o ponto esvaziar e encher. Cody não chegava, Lis se preocupou. Cody não faria isso. Ia continuar esperando. Abriu e fechou os olhos, demoradamente. Fechou-os novamente, abriu e resolveu fixá-los num único lugar. Exercício de pensamento, Liesel manejava bem essa técnica. Fixou os olhos no lugar certo, Cody vinha na mesma direção. Um sorriso involuntário iluminou o rosto da garota. Saíram, não tinham tempo a perder. Pararam na pracinha de sempre, depois da última vez, não havia mais estado ali. Lembranças pisacavam nos olhos de Liesel. Conversaram palavras repetidas e plavras que ainda não haviam sido ditas. Depois que Cody leu, aquela carta que nunca seria lida, Lis,permitiu que a saudade movesse seus braços aos ombros de Cody, sentado ao seu lado, que não se moveu com o gesto. Liesel recostou a cabeça no ombro que havia feito tanta falta, durante todo esse tempo. Sentiu medo de perdê-lo de novo, com o cerébro bloqueado e coração aberto, levantou o rosto e com toda leveza possível de seus dedos finos, moveu o queixo de Cody. Beijou-o. Mas com tanta intensidade, que enquanto os lábios se tocavam, Liesel derramava lágrimas, uma em cada olho. Beijou-o novamente. Só Lis sabia a falta que sentia daqueles lábios. Precisava conter e enxugar as lágrimas que salgavam o beijo. Enquanto enxugava, Cody ria. Ela esperava essa reação, riu e mais uma vez o beijou. Cody não parecia estar tão entusiasmado quanto ela, mas a beijava também. Talvez sentisse falta, afinal, fora ele quem havia combinado dia, hora e local. E mesmo percebendo mais uma vez, a já notável falta de reciprocidade, Liesel não conseguia soltar os braços de Cody. Precisava dele pra viver. O tempo que ficou longe, o beijo e as lágrimas eram provas disso. E ela nem precisava de provas.