Escrever é resgatar um tempo que foi, e amarrar um tempo que vai .

Liesel estava ansiosa. A chuva ia e voltava. Logo ao sair da escola, a sandália de Liesel quebrou. 'Ah não', pensou Liesel, chegaria atrasada. Estava sem relógio, mas saber a hora também não ajudaria, desceu do táxi na hora exata que a chuva resolveu cair torrencialmente. Cabelos e maquiagem estragariam, se ela não fosse rápida o suficiente com o guarda-chuva, estava acostumada a agir com habilidade. Chegou ao local combinado, não o viu. Perguntou as horas, estava 20 minutos atrasada. Ele já tinha esperado quase uma hora, uma vez. Liesel sentou-se no banco, esperaria mais um pouco. Tinha esperança, queria vê-lo, talvez até mais que o próprio Cody. Detonautas tocando baixo, no único fone que funcionava do ipod. Ela viu o ponto esvaziar e encher. Cody não chegava, Lis se preocupou. Cody não faria isso. Ia continuar esperando. Abriu e fechou os olhos, demoradamente. Fechou-os novamente, abriu e resolveu fixá-los num único lugar. Exercício de pensamento, Liesel manejava bem essa técnica. Fixou os olhos no lugar certo, Cody vinha na mesma direção. Um sorriso involuntário iluminou o rosto da garota. Saíram, não tinham tempo a perder. Pararam na pracinha de sempre, depois da última vez, não havia mais estado ali. Lembranças pisacavam nos olhos de Liesel. Conversaram palavras repetidas e plavras que ainda não haviam sido ditas. Depois que Cody leu, aquela carta que nunca seria lida, Lis,permitiu que a saudade movesse seus braços aos ombros de Cody, sentado ao seu lado, que não se moveu com o gesto. Liesel recostou a cabeça no ombro que havia feito tanta falta, durante todo esse tempo. Sentiu medo de perdê-lo de novo, com o cerébro bloqueado e coração aberto, levantou o rosto e com toda leveza possível de seus dedos finos, moveu o queixo de Cody. Beijou-o. Mas com tanta intensidade, que enquanto os lábios se tocavam, Liesel derramava lágrimas, uma em cada olho. Beijou-o novamente. Só Lis sabia a falta que sentia daqueles lábios. Precisava conter e enxugar as lágrimas que salgavam o beijo. Enquanto enxugava, Cody ria. Ela esperava essa reação, riu e mais uma vez o beijou. Cody não parecia estar tão entusiasmado quanto ela, mas a beijava também. Talvez sentisse falta, afinal, fora ele quem havia combinado dia, hora e local. E mesmo percebendo mais uma vez, a já notável falta de reciprocidade, Liesel não conseguia soltar os braços de Cody. Precisava dele pra viver. O tempo que ficou longe, o beijo e as lágrimas eram provas disso. E ela nem precisava de provas.