Desse jeito, ela pensou, levaria até onde desse.

A dor não deixava Liesel dormir. Eram 04:28 da manhã, o despertador tocaria dali a 2 minutos, e pela ordem natural das coisas, ela desligaria o celular e dormiria, até seu pai a chamar quase uma hora depois. Mas naquela manhã, Lis não se atrasaria. Mesmo acordada, esperou o celular tocar. 2 minutos e ele tocaria. Não tinha como não pensar em Cody. Não precisava nem fechar os olhos, o cheiro dele, ficou impregnado na farda do colégio, que durmira na cabeceira da cama, em breve, no sábado, dia de lavanderia, ela sabia que se livraria do perfume. Ela não queria. O celular só deu um toque. Liesel o desligou imediatamente. Levantou-se rápido. Quanto mais tempo permanecia parada, mais a dor aumentava. Movimentar-se era agora, uma atividade importante. Precisava preencher todos os segundos na mente, o que era obviamente impróvavel e ímpossivel de ser feito, se ela não o imaginasse a cada batida do coração. Dormir era torturante. Concentrar-se em algo que não fosse suas anotações e textos era um insucesso. Perdida. Era como Liesel se sentia. Ausente de si própria. Sim, a dor dominava Lis. A consumia. A certeza de que era o fim. Não haveria mais nenhuma tentativa de volta, sugava a energia de Liesel. Desse jeito, ela pensou, levaria até onde desse. Liesel não vivia, ela simplesmente existia. E enquanto o dia passava, ela olhava pro curativo no pulso  direito. Sentia medo. A atração pela morte, superava a vontade de viver, o band-aid no pulso, era prova disso. Já havia furado o esquerdo antes, mas nunca desejara tanto a  consumação do ato, como agora. A noite, tinha planos de fazer novos furinhos. Nada a distraía, nada provocava sorriso em seus lábios. Sorria sim. Fingia ás vezes, pra não ser desagradável. Mas não aparecia a covinha na bochecha, enquanto sorria por conveniência. E dessa forma, ela iria levando, até onde desse... Sabia que sua vida não ia acabar por causa de Cody. Cody era só um garoto e ela já esquecera outros garotos antes. Mas sabia também, que sua existência nunca mais seria a mesma.