Oito de outubro, comemora-se nada.

Mais um dia, pra coleção de dias, que chamam de vida. A rotina que se repetia. Liesel estava se sentindo bem, ou talvez seria melhor dizer, normal. Afora o fato de que, frequentar a escola era entediante e tenebroso, porque estava sentindo-se uma alien naquele amplo espaço. Enquanto dava curtos passos, como que pra evitar a chegada a escola, ia pensando em como havia abandonado tanta coisa dentro de si. Havia fugido de si mesma. Pensar assim,  desse jeito, era enumerar proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais segura, mais serena, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo. Continuar vivendo, parecia normal. entediante, como a escola. Perguntava-se, o que realmente queria agora. Queria o tudo. Mas o que seria o tudo ? Era preciso ir limitando o sonho, apagando as linhas supérfluas, corrigindo as arestas, até restar somente o centro, o âmago, a essência. Mas o centro era inatingível. Desconhecido. E depois de tanto, ou de tão pouco, o que restara, fora apenas a falta de perspectivas. O vento soprou mais forte, Lis levantou os olhos, havia passado dois quarteirões da escola. Sentou-se na calçada, a caminhada que daria de volta a escola, não a desanimava. Era melhor, chegaria atrasada. Levantou-se, 'há males necessários'  pensou Liesel, a escola era um deles. Descobriu qualquer coisa dentro de si que, não sabia exatamente como nem por quê, conseguia mantê-la serena no meio da falta absoluta de perspectivas.

(Texto escrito pela dona do blog, inspiradíssimo no ídolo Caio Fernando Abreu ♥ )

Depois de algumas lágrimas, Lis descobre o significado das cicatrizes.

Depois de um silêncio, as lágrimas. É a lei natural das coisas, não é ?  Sim, era. Assim como desejara diversas vezes, que as pessoas ao redor, escutassem e entendessem o seu silêncio, Lis, por fim entendera que o final já havia chegado, todos já tinham assistido e batido palmas ao fim deste final, menos ela. Era este o significado do silêncio de Cody. Agora, a sensação de vazio era uma companheira, insubstituível. Estivera ali todo o tempo, mas nunca tão presente, como agora. E a acompanharia a largos passos, ou talvez não. Esta era mais uma etapa, estava certa disso. Para que o arco-íris apareça, é necessário que antes venha a chuva. É, é a lei natural das coisas. Não podia antecipar fatos, uma hora estaria livre, ou nunca estaria livre desse sentimento mas, de alguma forma, conviveria com ele. Como uma cicatriz, que não some, está sempre ali, pra lembrar que a dor havia sido real, mas que agora era uma vaga lembrança que tocada, não sangrava, nem ardia. Hora ou outra tinha de ser feliz, ou ao menos tentar. Para Liesel, a felicidade consistia em tentar alcançar a própria. Nem mesmo a mulher no anúncio do apartamento de luxo, com cabelos longos e sorriso aberto no comercial da tv era 100% feliz, não podia ser, ninguém era. Lembrou-se a si mesma, que precisava ir a praia. Lera em algum lugar, que o vento não cobrava pra levar algumas coisas e não as tomava de nós, a menos que deixassemos. Enquanto este esperado passeio não chegava, ia atravessando os dias. Alma vazia, no lugar do coração, aquele buraco. As vezes doía, mas não ao ponto de fazê-la derramar lágrimas. É que quando se está muito perto da cura, a dor aumenta, sua vó dissera 'Por experiência própria'. 

Até sempre. Ou não.

P-o-r-q-u-e. Seis letras, que variavam de formas e sentidos. E exerciam os mais diversos questionamentos, na mente confusa, e agora forçadamente limitada de Liesel. E pensar, que há algumas horas, esteve tão perto de Cody, como não imaginara que estaria, depois desses 3 meses e 25 dias. E vê-lo, só reforçou a tese de que, amor como este, ela nunca mais sentiria igual. Porque ele ficava tão bem de azul. Combinava com o contraste de sua pele, morena meio clara e bronzeada. E aquele jeito turrão, não havia mesmo mudado, caía bem também, com o azul. E os olhos de Lis, não cansavam de procurá-lo, e mirá-lo em todos os momentos possíveis, aquilo era necessário. Naquele momento (como em todos os outros) dependia mais dele, do que de si própria. Ele retribuía o olhar, vagamente, disfarçadamente. Como se quisesse evitar o inevitável. Inevitável que ele, no alto de sua supremacia, arrogância e orgulho, conseguiu evitar. Nem ao menos a cumprimentara. Nem um 'oi'. Porque ? Nem mesmo nos momentos em que o que restara de um coração em Liesel disparavam, ao vê-lo se aproximar tanto. Nada. Inexiste, ele dissera uma vez. Cody Meminger, simplesmente ignorava a pessoa para o qual, ele era todo um universo dentro do íntimo infinito particular. Queria abraçá-lo, sentir seu cheiro, que ainda lhe era palpável nas narinas. Rir dele, com ele. Queria lhe dizer o quanto esperara, para vê-lo de novo, contar-lhe da importância que tinha, desmedida. Contar o sonho, que teve na tarde anterior, enquanto dormia depois de ter tomado remédios por causa de uma febre, que chegou depois que soube, que o veria no dia seguinte. Dia este, que havia aberto uma ferida semi-fechada e quase cicatrizada. Que agora sangrava, incontrolavelmente, mas não doía nem ardia. Apenas incomodava. E se antes não tinha uma resposta, agora era ainda mais incerto, ou não. 'Até quando ?' essa já não era mais a pergunta... Até sempre ?