Antes não era melhor, mas dá saudades.

Lutar em segredo, fechada no quarto, sem que ninguém saiba. Para os outros, mostrar só o melhor de si, a face mais luminosa. Uma rotina que não cansava de se repetir. Uma eterna constância. Liesel já havia dado tempo ao tempo. Um prazo suficiente e considerável, pra o senhor-sabe-tudo do tempo, ajeitar e colocar as coisas no lugar. As coisas estavam no lugar, exceto por aquele buraco raso que, antigamente ficava um orgão involuntário. Não o teria de novo, e ainda que o tivesse, não seria mais o mesmo. Então, de nada valeria. Sentia saudades daquele que ela sabia, que não voltaria. Sem ele, melhor seria viver só. A chuva caía com tanta força, que decidiu por não chorar, as nuvens, altivas, faziam isto por ela.  'Até quando ?'. Esta era uma pergunta, para qual ninguem tinha resposta. Livrar-se disto era fácil, quando não parecia necessário.

Laços visiveis, que não são vistos, nem quebrados.

Muita coisa havia mudado, mas eles ainda estavam lá. Os laços visíveis, que só a própria Liesel via. A vida havia seguido, as lágrimas eram agora, raridades. Acordar, estudar, dormir. Eram coisas normais, tudo havia voltado pro seu eixo. Já não doía, as lembranças já não apareciam mais, com a mesma frequência, com frequência quase nenhuma agora. A fachada,mantida desde sempre, era agora 60% da própria Liesel. Estar com os amigos, rir até doer, falar de coisas da vida, assistir novela, tudo isso era muito distrativo. As pessoas á sua volta, percebiam a mudança, que ela se esforçava pra transparecer... Estava enganando a si própria, Jake dissera uma vez. Este, era o único que sabia, que Liesel sabia, que estava enganando a si própria, com sucesso. E estava mesmo. Por vezes, sozinha, desejava que o tempo voasse, e que o destino de alguma forma, unisse , do nada, sua vida, á vida de Cody. Como fizera da primeira vez. Esperava que o tempo voasse, para que ele retornasse... e então, como de costume, abraçá-lo, e beijá-lo, e sentir aquele algo em comum, que inexistia ao mesmo tempo em que era o elo que os ligava. Sabia, que um amor assim, desse jeito, não ia sentir de novo, mas precisava viver, porque uma vida assim, desse jeito, não ia viver de novo.  E mesmo que essa saudade fosse uma ferida não curada e incurável, precisava se permitir, e suportar. Então,  é este o preço que se paga, por amores demedidos, e desamores fatais.

O esforço pra lembrar, é vontade de esquecer ?

Milhões de vasos sem nenhuma flor. Milhões de flores sem nenhuma pétala. Jake riu. Liesel sabia que ele estava rindo, pois sentia a brisa leve fazer cócegas com o cabelo na bochecha dela. Para Jake, as coisas que Liesel falava e sonhava não eram ilógicas nem loucas. Ele era o melhor amigo do mundo. A ouvia, pacientemente. Levava a sério o que ela falava. Ria com a mesma frequência que a fazia rir. Estava ao seu lado, quando ela mais precisava de silêncio. Tinha dedos macios, como veludo e Liesel se sentia aquecida quando ele enxugava suas lágrimas. Fechou os olhos e desejou que Jake fosse real... Se ele fosse real, apaixonaria-se por ele. Jake, era apenas um amigo imaginário, bem formulado. Liesel sentiu medo. De repente, pensar em Cody, não era mais algo involuntário, era como se ela agora, fizesse esforço pra lembrar. Não queria acreditar, que estava deixando aquele amor virar poeira, não aquele...

Porque, depois da meia noite, o barulhinho do ponteiro no relógio é notável.

Tic-Tac. O silêncio era tão intenso na sala, que Liesel podia ouvir o barulho mudo do ponteiro do relógio na parede que anunciava 00:03 da madrugada. Mais um dia estava iniciando, mais 23 horas e 57 minutos pela frente. Os dias, as horas, o tempo, haviam perdido o sentido. Estagnada em tempo e espaço. Dominada pela inércia e convencida pela desesperança a manter-se deitada. Os pensamentos começaram a engarrafar e buzinar dentro do seu cerébro. Eram duas Liesel's, falando ao mesmo tempo. Dormir assim, era quase ímpossivel. Nem tentaria. Seria perda de tempo. Se bem que Liesel já não se importava em perder tempo. Perder tempo era ganhar tempo para o próprio tempo. Até que fazia sentido, mesmo que não tivesse nenhuma lógica nesse raciocínio. Estava mesmo perdendo a lucidez. Mas, um louco quando sabe que está louco, já não é mais louco. Ilógica, então. Ser ilógica, ultimamente, apesar de tomar-lhe o sono, estava ajudando. Distraía.

O tempo tarda... e falha.

Amanheceu. Mais uma manhã. Mais uma vez, ali estava o incansável que as vezes se cansa, o sol. Debaixo daquele mesmo céu, pensou Liesel, ele está também. Inevitável pensar nele. Inevitável sentir falta. A rotina não mudara, depois dos dois meses. Apenas pelo fato de que a sensação de vazio, por dentro, era muito mais avassaladora agora. Esquisito. Com o tempo, a tendência não seria melhorar... sarar ? Costumavam dizer que o tempo cura todas as feridas... Mais uma piada insana, de pessoas mal-amadas, como Liesel. Mas tudo já era tão estranho e ao contrário na sua vida, que Lis não se dispusera a pensar no assunto. E, mesmo que agora, a saudade fosse assustadoramente dolorosa, precisava se manter firme. Para não demonstrar fraqueza para os que acreditavam na sua lucidez. Precisava se manter firme e distante, aproximar-se agora, poderia atrapalhar a vida de Cody, que parecia muito bem. Pra essa dor, diferente daquela dor de antes, Liesel ainda não havia arranjado nenhum dos seus remédios inúteis. Havia acreditado no tempo, mas ele não se mostrava forte e implacável, como nas piadas insanas das pessoas sem bem-querer. Queria descobrir um xarope pra apagar a memória. E essa saudade doída, trazia uma vontade estranha de ir ver o mar, quem sabe o vento e a maresia da praia, trouxessem a solução que o tempo esqueceu em alguma gaveta.

Uma contradição, controversa.

A ausência de Cody estava machucando Lis. Já havia se passado dois meses, tempo suficiente pra fechar o que feriu por dentro. Parecia mesmo, tempo suficiente. Cody havia sumido. Não ficava mais online no msn, não entrava no orkut, não frequentava os mesmos lugares que Liesel, não dava sinal de vida. Talvez, e muito provável, ele havia retomado a rotina. Obviamente. Ele agora tinha com que se preocupar... com quem. Liesel não estava fazendo nem metade da falta que ele fazia. Ele, ao contrário dela, não tinha um buraco no lugar onde antigamente ficava seu coração. Aos poucos, a esperança de Lis ia morrendo, mas ela, incrivelmente, lutava pelo contrário. Para que aquilo não virasse poeira, lutava por não esquecê-lo. Ele não podia, não iria morrer. Não dentro dela. E então, ela era uma controversa - contradição. Esforçava-se para que sua mente não o esquecesse e seus olhos ao se fecharem, lembrassem daquele sorriso, nos mínimos detalhes. Ao mesmo tempo em que desejava tirá-lo de si. A saudade tornava Liesel hipócrita. E Liesel odiava hipocrisia. Essa contradição machucava. Fazia a cabeça rodar e doer, então Liesel decobriu um remédio pra isso. Dormir. Porque, enquanto dormia, nada precisava estar sob seu controle. Decidir entre esquecer e lembrar, era algo que Liesel definitivamente não queria, nem sabia fazer, mas que hora ou outra, iria acontecer. E mesmo sem forças, por causa das tentativas frustradas, em algum momento seria inadiável ela teria que recomeçar...

A inestimável perda do que não se tem.

Dois dias, para dois meses. Tempo exato em que Liesel não via Cody. Não o via fisicamente, porque nos últimos dias, como de costume, ele foi presença constante em seus pensamentos. Queria mesmo vê-lo. Havia desistido da fútil ideia de tentar esquecer. Não tinha forças, ainda mais para perdê-las com tentativas inúteis e repetidas. Talvez, se fizesse o caminho contrário, deixando as lembranças aflorarem, doesse menos. E de tão acostumada com a dor, acabasse por esquecê-lo. Mas era isso que Lis vinha fazendo todo esse tempo, e ainda assim nada havia mudado. Só a dor, que se entorpecera e se tornara mais forte. Liesel desejava agora, viver os momentos que não foram vividos. O futuro, que havia morrido, antes de nascer. Esse vazio era muito pior, o vazio do que não aconteceu. Saudade do gostinho das coisas que não havia provado. Poderia provar todas essas coisas, com outras pessoas, até mesmo imaginariamente. O problema, era que amava Cody Meminger e ela não tinha dúvidas, de que com ele daria certo. Era algo naquele sorriso de aparelho, que completava seu mundo.