Nenhuma recordação ligava mais Liesel Steiner a memória de Cody Meminger. Não que houvesse esquecido todo afeto que lhe tivera um dia. Mas abrira uma gaveta no cerébro, e resolvera guardar de uma vez por todas, todo aquele material nostálgico, ali, para que a poeira do que restara, não mais impregnasse em seus pensamentos. Não era fácil tomar atitudes como essa, uma vez que a dor provocara-lhe uma preguiça enorme para uma faxina assim, mas depois do que parecera um longo sono, amanhecera. E vivia. Vivíssima. Por tantas vezes pensara que sua vida não voltaria ao eixo... Riu ao lembrar-se. Conseguia contar a si mesma, a mais triste e bela história que vivera até ali. ALI. Pois haveria ainda, muito mais pra viver. E lembrava sim, perfeitamente, dos choros, das noites sem dormir, das cartas não-enviadas. Do desespero, medo, das alucinações. Lembrava-se também, de todo amor. De sua parte, sim. Porque, para chegar aquele estágio de extrema indiferença ás lembranças que mais a fizeram sofrer, Lis precisou fazer uma faxina geral dentro de si mesma. Foi nessa 'faxina' que viu, como fora enganada, até por si mesma. Viu que por ingenuidade e inocência, aprendeu na pele, o verdadeiro significado e importância da reciprocidade. E sem nenhuma vontade de chorar, entendeu, que aquele amor, nunca havia sido recíproco. Que nunca seria perfeito, visto que era unilateral. Não lhe restavam dúvidas, nem porquês, exceto um: Porque demorara tanto a aprender ? Porque para se começar essa faxina, precisou-se antes de tantas lágrimas ? Não precisava dessa resposta, agora que havia aprendido, esforçava-se apenas em recuperar o tempo perdido. A dor, que antes lhe provocava preguiça, já não existia mais. Lis finalmente havia aprendido que arrumar a bagunça da vida é como arrumar a bagunça do quarto. Tirar tudo, rever roupas e sapatos, experimentar e ver o que ainda serve, jogar fora algumas coisas, outras separar para doação. Isso pode servir melhor para outra pessoa. Hora de deixar ir. Alguém precisa mais do que você. Se livrar. Deixar pra trás. Algumas coisas não servem mais.
Porque ocupar o coração com alguém que não lhe serve é como guardar roupa velha dentro da gaveta, perda de espaço, tempo, paciência e sentimento.