Mudaram as estações, tudo mudou.
'Faz quase um ano!' exclamou Liesel ao telefone, exclamação que antecedeu uma longa risada. Como o tempo havia passado rápido... Ou será que fora Lis que já não contava mais os dias na passagem de tempo? Após desligar o celular, deitou-se e por um instante as lembranças de todo o ano que havia se passado, vieram á tona.
Havia crescido, por dentro. Por fora, continuava a mesma Lis, com exceção do sorriso de covinha, mais raro... e mais bonito. Abandonara conceitos, convicções, nóias. Adquirira medos, pressas, conclusões. Como um filme, passava-lhe pela cabeça, tudo que fora. Que sentira. Apesar de todos os 'apesares' , foi um dos anos onde mais aprendeu. Porque Cody ligara ? não, não. Não era esta a pergunta exata. Como ele sabia o número ? esta era a pergunta exata. Não importava. O que realmente importava, era aquele amanhecer dentro dela. Amanhecer este que não havia sido gerado pela ligação, e sim pela sua reação. Natural, nenhum sentimento por dentro ao ouvir a voz que há muito não ouvia. A não ser a sensação de que não sentia mais nada, nem ódio, nem rancor... Nem saudade. De olhos fechados, sorriu. Se estivesse com os olhos abertos, veria que aquele sorriso transmitia e brilhava a luz do amanhecer que estava acontecendo dentro dela, veria que aquele foi o mais belo sorriso que deu. Sorriu por enfim convencer-se de que sim, o recomeço havia começado... Há muito tempo! Desde que aquele anjo sem asas apareceu, e sem intenção de tal, a tirou do lago de lama que afundara durante tanto tempo. Trazia um rosto doce, bom e aliviado. E lhe mostrara tantas coisas, grandes, pequenas, arco-iris, tobogâs, estrelas, tantas coisas, algumas sem importância. E aos poucos, Liesel viu, que o recomeço não era tão dificil, nada é dificil quando não se está mais só. Tantos anjos (ou talvez não tenham sido anjos) haviam aparecido, pensou Liesel, mas nenhum a fizera sentir-se bem, como este. E era lindo. O anjo, sem asas. E ele tão dispostamente, deu-lhe a mão. E tão solicitamente, ofereceu-lhe o que nunca ninguém havia lhe oferecido. E ele não era como Cody, mas Liesel conseguia amá-lo ainda mais. Amava-o, por não fazer dele uma droga. Amava-o por admirar a forma como havia a feito sorrir de novo, depois de tanto tempo e de tanta indiferença. O arco-íris... depois da chuva. Levantou-se, não há porque se manter estático, parado. Há sempre um pôr-do-sol esperando pra ser visto...